
Cheirinho de final de ano...
A gente só se dá conta que o ano vai mesmo acabar quando as lojas estão enfeitadas e todo mundo passa a agir conforme o 'espírito natalino'. Para ser bem sincera eu tenho trauma de não gostar do Natal, eu até reclamava mas depois que passei o Natal sem a minha mãe por perto resolvi que não deveria reclamar e que tudo sempre estaria perfeito até mesmo pelo fato de poder piorar sempre.
Sei que muitas pessoas tem Natais tristes todos os anos, e não comem nada de especial como outra parte da população costuma e seria bom poder mudar essa realidade mas só por hoje permito-me ser egoísta, eu não vou falar do Natal dos outros vou falar do meu Natal de 2004, da minha vida em 2004.
Eu as vezes fico pensando sobre aquele ano de 2004, eu beeem novinha ainda estava na oitava série e meu irmão mais novo ainda. Estava tudo indo tão bem, fomos para o Beto Carrero em SC e eu vivia normalmente no meu mundinho com meus pais, amigos, namorado quando de repente minha mãe como num passe de mágica resolve adoecer sem previsão e chances de melhoras. Não sei porque resolvi comentar sobre isso aqui mas neste exato momento lembrei que foi na data de hoje que tudo ocorreu, há exatos 4 anos.
Como pode você num dia ter tudo ao seu alcance e do nada se sentir desamparada, triste e sem sua mãe? A pessoa que mais te ama no mundo inteiro numa cama de hospital, numa uti e em coma. Você vendo que todas as pessoas vão à sua casa para te acalmar, te dão presentes, trazem sorvete e nada disso te anima. Teu namorado faz de tudo pra você rir um pouco e toda a sua família sabe que se descuidar de você por alguns instantes você se mata. Sim, porque a pressão foi tanta... e eu era muito nova pra me imaginar sem a minha mãe, eu tinha apenas 14 anos e eu não sabia nada da vida, eu ainda vivia em crises comigo mesma. Como eu ia me virar se ela me deixasse? Eu me agarrei a Deus, pedia com fé mas em nem todos os momentos eu tinha certeza de que ela fosse sobreviver. Depois de mais de um mês a dor já era diferente e com apenas 14 anos eu não tinha nunca pensado como era viver sem a minha mãe, mas eu estava vivendo.
E o ano acabou, acabou diferente porém acabou e antes de acabar eu tive missa de final de ano, tive viagem de formatura e colação de grau. Eu tinha a família inteira ao meu lado, desde meu pai e minha vó até os parentes mais distantes que mal falam comigo. Era como se o mundo tivesse dó de mim, era como se a minha dor pudesse ser vista por todos. Mas não, não era vista por todos e eu juro que não. Não que a minha dor foi maior ou menos do que a das outras pessoas mas a minha dor era dor de filha, dor de incerteza, dor de carência. Carência apenas de mãe... era como se faltasse uma parte, como se ela fosse minha terceira perna. Imaginem o meu desespero, em minha cabeça tinham imagens de cemitério já. Pode ser foda falar disso agora depois desse tempo todo mas eu ficava pensando no escandâlo que eu faria se algo acontecesse com a MINHA mãe.
E eu sofri, de uma maneira que té hoje ninguém sabe. Ninguém sabe que eu odiava ver todo mundo na minha casa, tinha hora que eu queria fugir e ter a certeza que quando eu voltasse minha mãe estaria de volta também. Eu fui egoísta, eu queria a minha mãe vegetando ou não. Eu fui para Sacramento na viagem de formatura e no fundo eu não conseguia ser a mesma, eu até dancei um pouco, fiz coisas que todos faziam mas só Deus sabe o medo que eu tinha de ter que voltar pra casa antes. Só Deus sabe que no meu íntimo a dor era imensa apesar de não demonstrar o tempo todo. Depois de algum tempo não havia mais demonstração direta porque pra mim já tinha virado palhaçada tudo aquilo, era palhaçada acreditar que a MINHA mãe estava respirando apenas 'porque os aparelhos estavam funcionando bem'. Mas Deus dá força e ele me deu muita força e me deu ótimos amigos. A Elaine ficou comigo durante todos os momentos de desespero e o pessoal do colégio foram como anjos embora era foda ver que todo mundo olhava pra mim com pena e sem saber o que falar. Era bem hipócrita dizer que ficaria tudo bem, não estava tudo bem e ninguém tinha previsão pra isso. Lembro-me como se fosse hoje de quando meu pai contou que ela ia pra uti e a 'desculpa' era porque lá tinha como cuidar melhor dela, e eu sabia que não era eu sempre tive em mente que uti era lugar de gente quase morrendo e eu sabia que era isso, dava pra ver nos olhos do meu pai e no desespero de toda minha família. As pessoas queriam me fortalecer e nem havia essa possibilidade. Como falar para uma menina de 14 anos que vai ficar tudo bem sabendo que ela já não é tão criança a ponto de perceber que aquilo seria apenas uma mentira? Uma mentirinha contada apenas para apaziguar a dor, como se a dor pudesse ser apaziguada ou algo do tipo.
E eu era tão nova, tive que crescer tanto em três meses. Eu era só uma adolescente mimada que tinha tudo e nunca pensou em perder, muito menos perder a mãe. Eu falava mal dos Natais em família por as vezes me causar certo desânimo mas eu falava de barriga bem cheia pois eu não sabia o que era um Natal vazio eu não sabia o que era ter um Natal triste. E em 2004 eu tive o Natal mais triste de toda a história, triste, amargo e vazio. Vazio porque só a minha mãe poderia completá-lo. Amargo porque eu não queria viver aqueles dias, eu queria o controle das coisas novamente, eu queria mandar todo mundo para o inferno, eu queria que alguém desse certeza de que ela ia voltar pra mim. E triste porque era só tristeza. E hoje eu penso diferente, eu penso que por mais chato que seja o seu Natal se você estiver ao seu lado as pessoas que são realmente importantes tudo vai ser bom e mesmo que você passe o Natal longe delas o fato de saber que elas estão BEM e você poder ouvir a voz da pessoa já é simplesmente tudo. O físico? O físico é relativo, a saúde que é primordial. Se a minha mãe estivesse saudável mas estivesse no Japão em 2004 eu seria a pessoa mais feliz. E o tempo passou, e graças a Deus (somente a ELE) minha mãe está bem viva hoje. Ela fofoca comigo, briga comigo, me dá conselhos, me beija, ri comigo e sabe de praticamente tudo da minha vida. E é dela que eu realmente preciso e NADA consegue mostrar o quanto eu agradeço a DEUS pela vida dela... e pela missão dela não ter se encerrado naquele ano.
Então, esse e todos os outros Natais (de 2005 pra cá) tem um valor mais especial, tem um valor único, o valor vital. O valor que nos faz perceber o quanto é bom e especial estarmos vivos e termos as pessoas que amamos perto da gente, até mesmo se distantes. Ainda bem que a doença da minha mãe causou apenas aprendizados e reflexões sobre a vida, sobre Deus.
Obrigada meu Deus.
O que foi feito pela minha mãe, se não milagre o que mais pode ter sido?
O milagre mais divino... obrigada por atender meus mais sinceros pedidos, serei eternamente AGRADECIDA e em minha boca Teu nome terá sempre MUITA glória.
Quando ninguém mais podia fazer nada além de Você me fortalecer curou a minha mãe e me ajudou a manter um certo equilíbrio.
Obrigada
Obrigada
Obrigada
NADA pode demonstrar minha gratidão.
Mãe, eu te amo da forma mais perfeita e de todas as outras formas admitidas pelo verbo amar.